Sobre a Mentira - Santo Agostinho

Sobre a Mentira - Santo Agostinho

Sobre a Mentira (De Mendacio), escrito por Santo Agostinho por volta de 395 d.C., é um tratado teológico e ético no qual ele analisa a natureza da mentira, seus tipos e suas implicações morais sob a perspectiva cristã. Dirigido a Consentius, o texto reflete o rigor moral de Agostinho e sua busca por alinhar as ações humanas à verdade divina.

É necessário compreender o que seja a mentira. Pois não é todo aquele que diz algo falso que está mentindo, se crê ou opina ser verdade o que diz. Crer e opinar são diferentes nisto: à vezes aquele que crê sente que não tem conhecimento daquilo em que acredita – mesmo que não duvide em hipótese alguma que não saiba aquilo que ignora, se crê firmemente. Porém, quem opina, julga saber o que desconhece. Ora, quem quer que enuncie algo que, em sua mente, tenha acreditado ou opinado, mesmo que seja falso, não mente. Pois deve isso à enunciação de sua fé: profere, por meio dela, aquilo que tem em mente e acredita ser como profere.

Estrutura e Conteúdo

O livro não é dividido em seções formais, mas segue uma argumentação lógica que explora o conceito de mentira e suas consequências:

Definição de Mentira

  • Agostinho define a mentira como uma fala intencional que contradiz o que se pensa, ou seja, uma discrepância deliberada entre o pensamento e a expressão, com o objetivo de enganar.
  • Ele distingue a mentira de erros factuais ou brincadeiras, enfatizando que o pecado está na intenção de enganar.

Tipos de Mentiras

Agostinho classifica as mentiras com base em suas motivações e efeitos, identificando oito tipos, ordenados do mais grave ao menos grave:

  1. Mentiras em questões de fé ou doutrina religiosa (as mais graves).
  2. Mentiras que prejudicam alguém sem beneficiar ninguém.
  3. Mentiras que beneficiam alguém às custas de outro.
  4. Mentiras contadas por prazer de mentir.
  5. Mentiras para agradar ou evitar constrangimento.
  6. Mentiras que beneficiam alguém sem prejudicar outro.
  7. Mentiras para evitar um mal maior (como salvar uma vida).
  8. Mentiras para proteger a honra ou evitar pequenos inconvenientes (menos graves).

Mesmo as “mentiras úteis” (como para salvar alguém) são rejeitadas por Agostinho como moralmente inaceitáveis.

A Mentira e a Verdade

  • Para Agostinho, a verdade é um reflexo de Deus, que é a Verdade absoluta. Mentir é, portanto, afastar-se de Deus e violar a ordem moral.
  • Ele refuta argumentos que justificam a mentira por boas intenções, como proteger alguém, afirmando que o fim não justifica os meios e que a fé na providência divina deve prevalecer.

Discussão Prática

  • Agostinho aborda exemplos bíblicos e situações práticas, como as parteiras hebreias que mentiram ao Faraó (Êxodo 1:19). Ele sugere que Deus as recompensou por sua intenção de salvar vidas, mas não pela mentira em si.
  • Ele condena até mentiras aparentemente inofensivas, pois elas corroem a integridade e a confiança.

Ideias Principais

  • A mentira é sempre um pecado: Não há exceções, pois ela contradiz a natureza divina da verdade.
  • Intenção importa, mas não absolve: Mesmo com boas intenções, mentir é moralmente errado.
  • Verdade como dever cristão: O cristão deve falar a verdade em todas as circunstâncias, confiando em Deus para os resultados.
  • Consequências espirituais: A mentira afasta a alma de Deus e compromete a salvação.

Contexto

Escrito após Sobre o Livre-Arbítrio e antes de Confissões, Sobre a Mentira reflete o período em que Agostinho, já bispo, buscava esclarecer questões éticas para a comunidade cristã. Ele responde a debates da época sobre se a mentira poderia ser justificada em certas situações, rejeitando visões mais pragmáticas.

Relevância

O tratado é uma das primeiras análises sistemáticas da mentira na tradição ocidental, influenciando a ética cristã e discussões filosóficas posteriores sobre verdade e moralidade. Sua postura rígida contrasta com abordagens mais flexíveis, como a de Tomás de Aquino, mas reflete o idealismo de Agostinho.

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